Dra. Maria Cristina Mariani

Se você está aqui, provavelmente já sentiu aquela queimação que sobe pelo peito depois do almoço, ou aquele gosto amargo na garganta que aparece bem na hora que você deita para dormir. Pois é — esse desconforto tão familiar tem nome: doença do refluxo gastroesofágico, ou simplesmente DRGE.

Atendo muitos pacientes com refluxo no consultório, e uma coisa que sempre chama atenção é que a maioria demorou anos para procurar ajuda. A pessoa vai levando, toma um antiácido de vez em quando, corta a fritura… mas o problema nunca some de vez. E tem um motivo para isso: o refluxo não é só uma questão de ‘comer errado’. É uma condição que precisa de diagnóstico correto e, muitas vezes, de tratamento específico.

Mas afinal, o que acontece no corpo de quem tem refluxo?

Para entender o refluxo, imagine o esôfago como um cano que leva o alimento da boca até o estômago. Na junção entre esse cano e o estômago existe uma espécie de válvula — chamada esfíncter esofágico inferior. Quando tudo funciona bem, essa válvula se abre para a comida passar e fecha logo em seguida, impedindo que o conteúdo ácido do estômago suba de volta.

No refluxo, essa válvula não fecha direito — ou abre na hora errada. Resultado: o ácido do estômago volta para o esôfago, que não tem o mesmo revestimento protetor que o estômago tem. Daí vem a queimação, a irritação, e todos os outros sintomas.

As causas mais comuns dessa disfunção incluem:

  • Hérnia de hiato (quando parte do estômago sobe para o tórax pelo diafragma)
  • Excesso de peso, especialmente gordura abdominal
  • Gravidez
  • Tabagismo
  • Uso frequente de anti-inflamatórios
  • Alimentação rica em gordura, chocolate, café, álcool e alimentos ácidos
  • Refeições volumosas, especialmente antes de deitar

O que uma pessoa com refluxo sente no dia a dia?

Os sintomas do refluxo são mais variados do que a maioria das pessoas imagina. Nem sempre é só aquela queimação clássica:

  • Queimação no peito (azia) que piora deitada ou após as refeições
  • Sensação de que o alimento ‘volta’ para a boca (regurgitação)
  • Gosto amargo ou azedo na boca, especialmente de manhã
  • Dor ou dificuldade para engolir
  • Pigarro constante e sensação de ‘algo preso’ na garganta
  • Tosse seca crônica, sobretudo à noite
  • Rouquidão matinal
  • Chiado no peito (que pode ser confundido com asma)
  • Náuseas após as refeições

Atenção: dor no peito que irradia para o braço esquerdo ou falta de ar intensa devem ser avaliadas com urgência, pois podem indicar problemas cardíacos — não refluxo.

Como o refluxo é diagnosticado?

A maioria dos casos é diagnosticada com base nos sintomas e na resposta ao tratamento inicial. Mas alguns exames são fundamentais para avaliar a extensão do problema:

  • Endoscopia digestiva alta: visualiza diretamente o esôfago, estômago e duodeno. Identifica esofagite (inflamação), hérnia de hiato e a síndrome de Barrett.
  • pHmetria esofágica de 24 horas: mede a acidez dentro do esôfago ao longo de um dia. É o exame mais preciso para confirmar o refluxo e avaliar sua intensidade.
  • Manometria esofágica: avalia a pressão e o funcionamento do esfíncter esofágico. Importante antes de indicar cirurgia.
  • Teste empírico com IBP: em casos típicos, o médico pode iniciar tratamento com inibidores de bomba de prótons e avaliar a resposta.

Por que o refluxo não tratado é sério?

Muita gente não dá muita importância ao refluxo. Mas quando ele é frequente e não tratado, pode causar:

  • Esofagite erosiva: inflamação com lesões visíveis no esôfago
  • Esôfago de Barrett: a mucosa do esôfago muda de tipo celular — essa condição aumenta o risco de câncer de esôfago e precisa de acompanhamento rigoroso
  • Estenose esofágica: cicatrizes que estreitam o esôfago e dificultam a deglutição
  • Laringite crônica e problemas respiratórios recorrentes

Na minha prática, já atendi pacientes que conviveram com refluxo por mais de dez anos sem tratamento e chegaram ao consultório com Barrett instalado. Por isso insisto: não deixe para depois.

Tratamento: o que funciona de verdade?

Mudanças no estilo de vida (indispensáveis)

  • Comer em porções menores, com mais frequência
  • Não deitar por pelo menos 2 a 3 horas após comer
  • Elevar a cabeceira da cama cerca de 15 cm
  • Perder peso se houver sobrepeso ou obesidade
  • Parar de fumar
  • Reduzir ou eliminar álcool, café, chocolate, gorduras e alimentos muito ácidos
  • Usar roupas largas — cinto apertado aumenta a pressão abdominal

Tratamento medicamentoso

Os inibidores de bomba de prótons (IBPs) são os medicamentos de escolha. Eles reduzem drasticamente a produção de ácido e promovem a cicatrização do esôfago. A duração do tratamento varia — alguns pacientes precisam de uso prolongado, o que deve ser feito com acompanhamento médico.

Os antiácidos aliviam os sintomas rapidamente, mas não tratam a causa — são um apoio, não um tratamento definitivo.

Cirurgia: quando é indicada?

A fundoplicatura laparoscópica é uma opção para pacientes com refluxo grave que não respondem bem aos medicamentos ou que não querem depender deles para sempre. Consiste em ‘reforçar’ a válvula entre esôfago e estômago. A indicação é feita após avaliação cuidadosa com manometria e pHmetria.

Quando marcar uma consulta com gastroenterologista?

Você deve buscar avaliação especializada se:

  • Os sintomas aparecem mais de duas vezes por semana
  • Os antiácidos não controlam o desconforto
  • Você sente dificuldade ou dor ao engolir
  • Está perdendo peso sem motivo aparente
  • Tem tosse ou rouquidão persistente sem outra explicação
  • Já fez tratamento antes e o refluxo voltou

O refluxo tem tratamento eficaz — você não precisa conviver com esse desconforto. Se os sintomas estão interferindo na sua qualidade de vida, agende uma consulta. Uma avaliação bem-feita pode mudar muito a sua rotina.