‘Doutora, meu estômago é muito sensível. Qualquer coisa que como, sinto desconforto. Já fiz endoscopia e disseram que está normal. Mas normal não é o que eu sinto.’ Essa é uma das descrições mais comuns que ouço no consultório — e ela descreve perfeitamente a dispepsia funcional.
Dispepsia é um termo médico para sintomas que surgem na parte de cima do abdome — aquela região entre o umbigo e o osso esterno. Quando esses sintomas existem sem uma causa estrutural identificável (como úlcera ou tumor), chamamos de dispepsia funcional.
Quais são os sintomas da dispepsia funcional?
Os principais sintomas se dividem em dois padrões, que podem coexistir:
Síndrome do desconforto pós-prandial
- Sensação de empachamento excessivo após refeições normais
- Saciedade precoce — a pessoa começa a comer e logo sente que não consegue continuar
Síndrome da dor epigástrica
- Dor ou ardência na região central do abdome superior, não necessariamente relacionada às refeições
Além desses dois padrões, muitos pacientes também referem:
- Náuseas (raramente vômito)
- Arrotos em excesso
- Sensação de estufamento
O que causa a dispepsia funcional?
Assim como na SII, a dispepsia funcional não tem uma causa única clara. Os mecanismos mais estudados são:
- Acomodação gástrica prejudicada: o estômago tem dificuldade de ‘relaxar’ para receber o alimento, causando desconforto logo no início da refeição
- Esvaziamento gástrico lento: o alimento demora mais do que deveria para sair do estômago
- Hipersensibilidade visceral: o estômago reage de forma exagerada a estímulos normais
- Presença de H. pylori: em alguns casos, a bactéria pode estar relacionada
- Fatores psicossociais: ansiedade, depressão e eventos estressantes são frequentemente associados
Como o diagnóstico é feito?
O diagnóstico de dispepsia funcional requer:
- Sintomas presentes há pelo menos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses
- Ausência de lesão estrutural que explique os sintomas (endoscopia normal)
- Exclusão de outras causas: refluxo, gastrite por H. pylori, doença celíaca, diabetes (que pode afetar o esvaziamento gástrico)
A endoscopia é indicada especialmente quando há sinais de alerta: emagrecimento, dificuldade para engolir, vômito persistente, sangramento ou histórico familiar de câncer gástrico.
Como tratar a dispepsia funcional?
Abordagem alimentar
- Refeições menores e mais frequentes
- Comer devagar, mastigando bem
- Evitar refeições gordurosas e muito condimentadas
- Identificar alimentos gatilho individuais
Tratamento medicamentoso
- Inibidores de bomba de prótons: úteis especialmente na síndrome de dor epigástrica
- Procinéticos (domperidona, metoclopramida): estimulam o esvaziamento gástrico — úteis na saciedade precoce e empachamento
- Buspirona: melhora o relaxamento gástrico
- Antidepressivos tricíclicos em doses baixas: modulam a hipersensibilidade visceral
- Erradicação de H. pylori: quando o exame confirmar a presença da bactéria
Cuidado com a saúde mental
O tratamento da ansiedade e da depressão, quando presentes, é parte essencial do manejo da dispepsia funcional. Psicoterapia e, quando indicado, medicação psiquiátrica fazem diferença real nos sintomas digestivos.
A dispepsia funcional pode ser frustrante justamente porque os exames estão normais — mas os sintomas são absolutamente reais. O tratamento existe e funciona, mas precisa ser individualizado.