Constipação — ou intestino preso — é um dos problemas digestivos mais comuns que existem. Estima-se que afete cerca de 20% da população brasileira, sendo mais frequente em mulheres e em idosos. Mesmo assim, é um assunto que muita gente tem vergonha de mencionar — e acaba sofrendo em silêncio ou se automedicando com laxativos por anos.
Neste artigo vou explicar quando o intestino está realmente ‘preso’, quais são as causas mais comuns e como tratar de forma segura e eficaz.
Quando o intestino está mesmo constipado?
Existe um mito de que ‘evacuar todo dia é obrigação’. Na verdade, o que é normal varia bastante de pessoa para pessoa — de três vezes ao dia a três vezes por semana. O diagnóstico médico de constipação usa critérios mais objetivos:
- Menos de 3 evacuações por semana
- Fezes endurecidas ou em bolinhas (tipo 1 ou 2 na Escala de Bristol)
- Esforço intenso para evacuar
- Sensação de evacuação incompleta
- Sensação de bloqueio ou obstrução
- Necessidade de manobras digitais para facilitar a saída
Para o diagnóstico de constipação crônica, esses critérios devem estar presentes por pelo menos 3 meses.
O que pode estar causando seu intestino preso?
Causas mais comuns
- Dieta pobre em fibras: o Brasil ainda consome muito menos fibras do que o recomendado
- Ingestão insuficiente de água
- Sedentarismo: a atividade física estimula o movimento intestinal
- Ignorar o estímulo de evacuação repetidamente
- Estresse e ansiedade
Causas secundárias que precisam de investigação
- Hipotireoidismo
- Diabetes mellitus
- Doença de Parkinson
- Síndrome do intestino irritável com predominância de constipação
- Medicamentos: antidepressivos, opioides, antiácidos com alumínio, antiespasmódicos
- Disfunção do assoalho pélvico: o músculo que controla a evacuação não relaxa adequadamente
- Megacólon e outras alterações estruturais
Constipação de início recente, associada a emagrecimento, sangue nas fezes ou histórico familiar de câncer colorretal, deve ser investigada com colonoscopia com urgência.
Como o médico avalia a constipação?
A avaliação começa com uma história detalhada — quando começou, como são as fezes, quais medicamentos a pessoa usa. Os exames dependem das características do caso:
- Exames de sangue: para descartar hipotireoidismo, diabetes, anemia
- Colonoscopia: quando há sinais de alerta ou nas pessoas acima de 50 anos
- Estudo do trânsito colônico: ingere-se cápsulas com marcadores e acompanha-se sua progressão por raio-X. Avalia se o cólon funciona de forma lenta.
- Manometria anorretal: avalia o funcionamento dos músculos do canal anal
- Defecografia: exame de imagem que avalia o mecanismo de evacuação
O que funciona para tratar a constipação?
1. Aumentar a ingestão de fibras
A recomendação é de 25 a 35 g de fibras por dia. As principais fontes são frutas (mamão, ameixa, laranja com bagaço), vegetais, legumes, aveia, chia e linhaça. O aumento deve ser gradual para evitar gases e desconforto.
2. Beber mais água
Pelo menos 1,5 a 2 litros de água por dia. Sem hidratação adequada, as fibras não funcionam — pioram a constipação.
3. Atividade física regular
Caminhada diária já faz diferença. O movimento corporal estimula as contrações intestinais.
4. Não ignorar o reflexo gastrocólico
O intestino tende a se movimentar mais logo após as refeições. Tente sentar no banheiro nesse período, sem pressa, sem celular, sem esforço excessivo.
5. Laxativos — quando usar e qual tipo
- Osmóticos (macrogol, lactulose): amolecem as fezes retendo água. São seguros para uso prolongado quando indicados.
- Estimulantes (bisacodil, sene): ativam o movimento do cólon. Para uso pontual — uso crônico sem orientação médica pode ser prejudicial.
- Emolientes (docusato): amolecem as fezes. Úteis em casos específicos.
- Secretagogos (linaclotida, plenaxato): medicamentos mais modernos, que estimulam a secreção de líquidos para o intestino. Excelentes resultados em constipação funcional refratária.
6. Fisioterapia pélvica
Quando a constipação está relacionada à disfunção do assoalho pélvico (o músculo não relaxa na hora de evacuar), a fisioterapia especializada — chamada biorretroalimentação ou biofeedback — tem resultados muito bons.