Em alguns anos de consultório, um dos diagnósticos que mais me causa impacto é o da hepatite B crônica. Não pela gravidade em si — que é real — mas pela surpresa que causa no paciente. ‘Doutora, mas eu não sinto nada.’ É exatamente esse o problema: a hepatite B, na maioria das vezes, é silenciosa.
Só no Brasil, estima-se que mais de 1,3 milhão de pessoas vivam com hepatite B — e uma parcela significativa delas não sabe. Este artigo é para mudar isso.
O que é a hepatite B e como ela age no fígado?
A hepatite B é uma infecção causada pelo vírus HBV (Hepatitis B Virus). Esse vírus infecta as células do fígado e, dependendo de como o sistema imune responde, pode ser eliminado (hepatite aguda que cura) ou persistir por décadas (hepatite crônica).
Na hepatite crônica, o vírus convive com o organismo em um equilíbrio que pode ser enganoso: por anos, o fígado funciona razoavelmente bem, sem sintomas. Mas a inflamação crônica vai, aos poucos, danificando o tecido hepático — e pode evoluir para cirrose e, em alguns casos, para câncer de fígado (hepatocarcinoma).
Como a hepatite B é transmitida?
O HBV é transmitido pelo contato com sangue, sêmen, secreção vaginal ou outros fluidos corporais de uma pessoa infectada. As formas mais comuns de transmissão incluem:
- Relações sexuais sem preservativo com pessoa infectada
- Compartilhamento de agulhas, seringas ou outros equipamentos de uso intravenoso
- Transmissão vertical: de mãe infectada para o bebê durante o parto
- Procedimentos médicos ou odontológicos com material não esterilizado adequadamente
- Compartilhamento de objetos cortantes (giletes, alicates de cutícula, piercing)
O vírus NÃO é transmitido pelo abraço, beijo, aperto de mão, talheres compartilhados, tosse ou espirro.
O que sente quem tem hepatite B?
Hepatite B aguda
Quando a infecção é recente, alguns pacientes desenvolvem sintomas entre 1 e 4 meses após a exposição:
- Fadiga intensa
- Náuseas e vômitos
- Dor abdominal no lado direito do abdome
- Icterícia (olhos e pele amarelados)
- Urina escura (cor de chá ou Coca-Cola)
- Fezes claras (cor de massa de modelar)
Em adultos imunocompetentes, mais de 90% dos casos de hepatite B aguda curam espontaneamente, com o sistema imune eliminando o vírus.
Hepatite B crônica
A maioria dos pacientes com hepatite B crônica não tem sintomas até estágios avançados da doença. Quando aparecem, indicam comprometimento hepático já significativo: cansaço persistente, inchaço abdominal, icterícia, sangramento fácil.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é feito por exames de sangue. Os principais marcadores sorológicos são:
- HBsAg (antígeno de superfície): quando positivo, indica infecção ativa — aguda ou crônica. É o principal marcador de diagnóstico.
- Anti-HBs: quando positivo, indica imunidade — por vacinação ou infecção curada
- Anti-HBc IgM: indica infecção recente/aguda
- Anti-HBc IgG: indica contato prévio com o vírus
- HBeAg e Anti-HBe: indicam o grau de replicação viral
- HBV-DNA (carga viral): quantifica o vírus circulante — fundamental para decisão terapêutica
Além do diagnóstico, a avaliação do fígado é essencial: enzimas hepáticas (TGO, TGP, gama-GT), bilirrubinas, coagulação, albumina e imagem (ultrassonografia, elastografia hepática para avaliar fibrose).
Hepatite B tem tratamento?
Sim. A hepatite B crônica tem tratamento eficaz, embora não seja possível eliminar completamente o vírus em todos os casos. O objetivo do tratamento é suprimir a replicação viral, proteger o fígado da inflamação e prevenir a progressão para cirrose e câncer.
Os medicamentos disponíveis incluem:
- Análogos de nucleosídeos/nucleotídeos (tenofovir, entecavir): são os medicamentos de primeira linha. Tomados por via oral, uma vez ao dia, com excelente tolerância. Em muitos casos, precisam ser usados por muitos anos ou indefinidamente.
- Interferon peguilado: opção para um subgrupo de pacientes, com duração definida de tratamento. Aplicado por injeção, tem mais efeitos colaterais.
Nem todos os pacientes com hepatite B crônica precisam de tratamento imediato — isso depende da carga viral, do grau de inflamação hepática e do estado imunológico. Por isso o acompanhamento regular com hepatologista ou gastroenterologista é fundamental.
A vacina funciona?
Sim, e é altamente eficaz. A vacina contra hepatite B faz parte do calendário nacional de vacinação no Brasil e é oferecida gratuitamente para todas as faixas etárias. São 3 doses (0, 1 e 6 meses). A proteção é de longa duração — na maioria dos vacinados, dura décadas.
Se você não foi vacinado ou não sabe se foi, procure sua UBS ou o médico para verificar sua situação. A vacinação é a melhor forma de prevenção.