Dra. Maria Cristina Mariani

Lembro de uma paciente de 23 anos que chegou ao consultório com fezes com sangue há três semanas. Já tinha ido a duas emergências — em ambas, disseram que era hemorroida. Ela estava emagrecendo, ia ao banheiro mais de dez vezes por dia e mal conseguia sair de casa. Fizemos a colonoscopia: retocolite ulcerativa extensa.

Essa história é mais comum do que parece. A Doença Inflamatória Intestinal — que inclui a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa — ainda é pouco conhecida pelo público geral, frequentemente confundida com outras condições, e muitas vezes diagnosticada com meses ou anos de atraso. Este artigo é para mudar isso.

O que é a Doença Inflamatória Intestinal?

A DII é um conjunto de doenças em que o sistema imune ataca o próprio trato digestivo, causando inflamação crônica. Essa inflamação não é passageira — ela vem e vai, mas o intestino nunca fica completamente livre dela sem tratamento.

As duas principais doenças são:

  • Retocolite Ulcerativa (RCU): inflamação restrita ao intestino grosso (cólon) e reto. Começa no reto e se estende de forma contínua para cima. Compromete apenas a camada mais superficial da parede intestinal.
  • Doença de Crohn (DC): pode comprometer qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus. A inflamação afeta todas as camadas da parede intestinal e pode ser ‘em saltos’ — com áreas acometidas intercaladas com áreas saudáveis. É mais comum no íleo terminal (final do intestino delgado) e no cólon.

Por que a DII acontece?

A causa exata ainda não é completamente conhecida, mas sabe-se que é uma combinação de fatores:

  • Predisposição genética: pessoas com parentes de primeiro grau com DII têm risco aumentado
  • Resposta imune desregulada: o sistema imune confunde as bactérias da microbiota intestinal com inimigos e ataca
  • Microbiota intestinal alterada: desequilíbrios na flora intestinal parecem contribuir
  • Fatores ambientais: tabagismo (que piora o Crohn, mas tem efeito curiosamente protetor na retocolite), dieta ocidentalizada, uso de antibióticos na infância, urbanização

O que sente quem tem DII?

Retocolite Ulcerativa

  • Diarreia com sangue (sinal mais característico)
  • Muco nas fezes
  • Urgência para evacuar — às vezes a pessoa não consegue segurar
  • Cólicas abdominais, especialmente antes da evacuação
  • Tenesmo (sensação de que precisa evacuar mesmo o reto estando vazio)
  • Nas formas graves: febre, emagrecimento, anemia

Doença de Crohn

  • Dor abdominal — frequentemente no quadrante inferior direito, podendo simular apendicite
  • Diarreia (geralmente sem sangue nas formas de intestino delgado; com sangue quando o cólon é comprometido)
  • Emagrecimento e perda de apetite
  • Febre em atividade da doença
  • Fadiga
  • Manifestações perianais: fístulas, abscessos, fissuras — muito características do Crohn

Manifestações extraintestinais (em ambas)

A DII pode afetar outros órgãos além do intestino:

  • Articulações: artrite, artralgia
  • Pele: eritema nodoso, pioderma gangrenoso
  • Olhos: uveíte, episclerite
  • Fígado: colangite esclerosante primária (mais associada à RCU)

Como é feito o diagnóstico da DII?

O diagnóstico exige uma combinação de dados clínicos, laboratoriais, endoscópicos e histológicos (biópsias). Não existe um único exame que feche o diagnóstico sozinho.

  • Colonoscopia com biópsia: é o exame central. Permite visualizar as lesões, avaliar a extensão da doença e coletar amostras para análise microscópica.
  • Enteroscopia e cápsula endoscópica: para avaliar o intestino delgado no Crohn
  • Exames de imagem: enterografia por tomografia ou ressonância magnética — avalia espessura da parede intestinal, fístulas e abscessos
  • Calprotectina fecal: marcador de inflamação intestinal. Muito útil para distinguir DII de SII e para monitorar a resposta ao tratamento.
  • Exames de sangue: hemograma (anemia, leucocitose), PCR, VHS, albumina, ferro
  • Pesquisa de infecções: sempre necessário descartar causas infecciosas antes de confirmar DII

Tratamento: como a DII é controlada?

A DII é uma doença crônica — não tem cura, mas tem controle. O objetivo do tratamento é alcançar e manter a remissão (ausência de atividade da doença) e prevenir complicações.

Medicamentos

  • Aminossalicilatos (mesalazina): primeira linha na retocolite ulcerativa leve a moderada
  • Corticoides: induzem remissão em crises, mas não podem ser usados indefinidamente
  • Imunossupressores (azatioprina, 6-mercaptopurina, metotrexato): mantêm a remissão
  • Biológicos: grande avanço no tratamento da DII. Anti-TNF (infliximabe, adalimumabe), anti-integrinas (vedolizumabe), anti-interleucinas (ustekinumabe, risankizumabe). Indicados nas formas moderadas a graves ou quando os imunossupressores convencionais não funcionam.
  • Moléculas pequenas (tofacitinibe, upadacitinibe): opção oral com bons resultados na retocolite

Cirurgia

Na retocolite, a colectomia total cura a doença intestinal — mas exige reconstrução do trânsito. No Crohn, a cirurgia é reservada para complicações (estenoses, fístulas, abscessos), pois a doença pode recorrer em outras partes do intestino.

Estilo de vida

  • Parar de fumar (fundamental no Crohn — o cigarro ativa a doença)
  • Dieta equilibrada — não existe ‘a dieta do Crohn’, mas evitar alimentos que pioram os sintomas individualmente é razoável
  • Suporte psicológico — viver com uma doença crônica tem impacto emocional real
  • Vacinação em dia — pacientes em uso de imunossupressores ou biológicos precisam de atenção especial ao calendário vacinal

Se você se identificou com os sintomas descritos aqui, não espere. O diagnóstico precoce muda o curso da doença. Venha ao consultório — juntos podemos construir um plano de tratamento que permita você viver bem.