Dra. Maria Cristina Mariani

Constipação — ou intestino preso — é um dos problemas digestivos mais comuns que existem. Estima-se que afete cerca de 20% da população brasileira, sendo mais frequente em mulheres e em idosos. Mesmo assim, é um assunto que muita gente tem vergonha de mencionar — e acaba sofrendo em silêncio ou se automedicando com laxativos por anos.

Neste artigo vou explicar quando o intestino está realmente ‘preso’, quais são as causas mais comuns e como tratar de forma segura e eficaz.

Quando o intestino está mesmo constipado?

Existe um mito de que ‘evacuar todo dia é obrigação’. Na verdade, o que é normal varia bastante de pessoa para pessoa — de três vezes ao dia a três vezes por semana. O diagnóstico médico de constipação usa critérios mais objetivos:

  • Menos de 3 evacuações por semana
  • Fezes endurecidas ou em bolinhas (tipo 1 ou 2 na Escala de Bristol)
  • Esforço intenso para evacuar
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Sensação de bloqueio ou obstrução
  • Necessidade de manobras digitais para facilitar a saída

Para o diagnóstico de constipação crônica, esses critérios devem estar presentes por pelo menos 3 meses.

O que pode estar causando seu intestino preso?

Causas mais comuns

  • Dieta pobre em fibras: o Brasil ainda consome muito menos fibras do que o recomendado
  • Ingestão insuficiente de água
  • Sedentarismo: a atividade física estimula o movimento intestinal
  • Ignorar o estímulo de evacuação repetidamente
  • Estresse e ansiedade

Causas secundárias que precisam de investigação

  • Hipotireoidismo
  • Diabetes mellitus
  • Doença de Parkinson
  • Síndrome do intestino irritável com predominância de constipação
  • Medicamentos: antidepressivos, opioides, antiácidos com alumínio, antiespasmódicos
  • Disfunção do assoalho pélvico: o músculo que controla a evacuação não relaxa adequadamente
  • Megacólon e outras alterações estruturais

Constipação de início recente, associada a emagrecimento, sangue nas fezes ou histórico familiar de câncer colorretal, deve ser investigada com colonoscopia com urgência.

Como o médico avalia a constipação?

A avaliação começa com uma história detalhada — quando começou, como são as fezes, quais medicamentos a pessoa usa. Os exames dependem das características do caso:

  • Exames de sangue: para descartar hipotireoidismo, diabetes, anemia
  • Colonoscopia: quando há sinais de alerta ou nas pessoas acima de 50 anos
  • Estudo do trânsito colônico: ingere-se cápsulas com marcadores e acompanha-se sua progressão por raio-X. Avalia se o cólon funciona de forma lenta.
  • Manometria anorretal: avalia o funcionamento dos músculos do canal anal
  • Defecografia: exame de imagem que avalia o mecanismo de evacuação

O que funciona para tratar a constipação?

1. Aumentar a ingestão de fibras

A recomendação é de 25 a 35 g de fibras por dia. As principais fontes são frutas (mamão, ameixa, laranja com bagaço), vegetais, legumes, aveia, chia e linhaça. O aumento deve ser gradual para evitar gases e desconforto.

2. Beber mais água

Pelo menos 1,5 a 2 litros de água por dia. Sem hidratação adequada, as fibras não funcionam — pioram a constipação.

3. Atividade física regular

Caminhada diária já faz diferença. O movimento corporal estimula as contrações intestinais.

4. Não ignorar o reflexo gastrocólico

O intestino tende a se movimentar mais logo após as refeições. Tente sentar no banheiro nesse período, sem pressa, sem celular, sem esforço excessivo.

5. Laxativos — quando usar e qual tipo

  • Osmóticos (macrogol, lactulose): amolecem as fezes retendo água. São seguros para uso prolongado quando indicados.
  • Estimulantes (bisacodil, sene): ativam o movimento do cólon. Para uso pontual — uso crônico sem orientação médica pode ser prejudicial.
  • Emolientes (docusato): amolecem as fezes. Úteis em casos específicos.
  • Secretagogos (linaclotida, plenaxato): medicamentos mais modernos, que estimulam a secreção de líquidos para o intestino. Excelentes resultados em constipação funcional refratária.

6. Fisioterapia pélvica

Quando a constipação está relacionada à disfunção do assoalho pélvico (o músculo não relaxa na hora de evacuar), a fisioterapia especializada — chamada biorretroalimentação ou biofeedback — tem resultados muito bons.