Dra. Maria Cristina Mariani

Gastrite é uma das queixas mais comuns que chegam ao meu consultório. Mas o que percebo é que muita gente usa esse termo de forma bastante ampla — qualquer dorzinha no estômago vira ‘gastrite’. Na prática, nem sempre é isso, e é justamente por essa confusão que tantas pessoas ficam meses se tratando do jeito errado.

Neste artigo, vou explicar o que a gastrite é de verdade, como ela se manifesta, o que a causa e — principalmente — como tratá-la de forma correta.

Gastrite: o que é de verdade?

Gastrite é a inflamação da mucosa gástrica — ou seja, do revestimento interno do estômago. Esse revestimento é responsável por proteger as paredes do estômago do próprio ácido que ele produz. Quando ele fica inflamado ou sofre alguma lesão, surgem os sintomas.

Ela pode ser:

  • Aguda: aparece de repente, geralmente ligada a um fator específico (infecção, medicamento, estresse intenso)
  • Crônica: persiste por meses ou anos, muitas vezes com sintomas discretos ou até ausentes por longos períodos

O que causa gastrite? As principais razões

Existem várias causas possíveis, e identificá-las corretamente é fundamental para o tratamento:

  • Infecção por Helicobacter pylori: é a causa mais comum de gastrite crônica no mundo. Essa bactéria vive na mucosa do estômago e provoca inflamação persistente. Estima-se que mais da metade da população mundial seja portadora — mas nem todos desenvolvem sintomas.
  • Uso frequente de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): ibuprofeno, diclofenaco, aspirina — esses medicamentos inibem substâncias que protegem a mucosa, deixando-a vulnerável ao ácido.
  • Uso de corticoides por períodos prolongados
  • Consumo excessivo de álcool
  • Tabagismo
  • Estresse físico intenso (cirurgias, queimaduras graves, internações prolongadas)
  • Doenças autoimunes: em casos raros, o próprio sistema imune ataca as células do estômago (gastrite autoimune)
  • Refluxo biliar: a bile que vem do intestino pode irritar o estômago

O que sente quem tem gastrite?

Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa — e surpreendentemente, algumas pessoas têm gastrite documentada na endoscopia e não sentem absolutamente nada. Mas os sinais mais frequentes são:

  • Dor ou desconforto na região central do abdome superior (epigástrio)
  • Queimação ou ardência no estômago
  • Sensação de estômago vazio ou ‘roendo’ em jejum
  • Náuseas, às vezes com vômito
  • Sensação de estufamento ou peso após comer
  • Perda de apetite
  • Arrotos frequentes

Em casos mais graves, pode haver sangramento — que se manifesta como vômito com aspecto de borra de café ou fezes escuras e com mau cheiro. Isso exige avaliação imediata.

Como o médico confirma o diagnóstico?

O diagnóstico definitivo de gastrite é feito pela endoscopia digestiva alta, que permite visualizar a mucosa do estômago e, se necessário, colher pequenos fragmentos de tecido para biópsia.

Na biópsia, além de avaliar a inflamação, o patologista pode identificar a presença de H. pylori e verificar se há alterações nas células que mereçam acompanhamento.

O teste respiratório (Urea Breath Test) também é uma opção não invasiva muito eficaz para detectar H. pylori — sem precisar de endoscopia.

Como tratar a gastrite?

Erradicação do H. pylori

Quando a gastrite é causada pela bactéria, o tratamento é feito com uma combinação de antibióticos (geralmente claritromicina + amoxicilina ou metronidazol) junto com um inibidor de bomba de prótons. A duração é de 10 a 14 dias, e a confirmação da erradicação é feita com novo teste entre 4 e 8 semanas após o término.

Medicamentos para proteger e cicatrizar a mucosa

  • Inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol): reduzem a acidez e permitem a cicatrização
  • Antiácidos: alívio rápido dos sintomas
  • Sucralfato: forma uma camada protetora sobre a mucosa lesionada

Mudanças alimentares e de estilo de vida

  • Evitar anti-inflamatórios sempre que possível — se for necessário usá-los, fazer com proteção gástrica
  • Reduzir ou eliminar o álcool
  • Parar de fumar
  • Comer em horários regulares, sem pular refeições
  • Evitar alimentos que irritam: pimentas, frituras, café em excesso, alimentos muito ácidos
  • Gerenciar o estresse — o sistema nervoso tem influência direta na produção de ácido gástrico

Gastrite tem cura?

Depende da causa. A gastrite por H. pylori, após a erradicação bem-sucedida da bactéria, pode curar completamente. A gastrite por uso de anti-inflamatórios melhora quando o medicamento é suspenso ou quando se faz proteção gástrica adequada.

A gastrite crônica autoimune ou associada a atrofia da mucosa exige acompanhamento de longo prazo, com endoscopias periódicas — em especial porque a gastrite atrófica elevou o risco de câncer gástrico.

O ponto fundamental é: gastrite não é para ser tratada por conta própria, com antiácido de farmácia, indefinidamente. Um diagnóstico correto faz toda a diferença.