Se há uma história que mudou na medicina nas últimas décadas, é a da hepatite C. Durante muito tempo, era uma doença praticamente sem tratamento — os esquemas terapêuticos eram longos, mal tolerados e com taxa de sucesso baixa. Hoje, com os antivirais de ação direta, a cura da hepatite C é alcançada em mais de 95% dos casos, em um tratamento de 8 a 12 semanas, tomado por via oral.
O problema é que muita gente ainda não sabe que tem. A hepatite C pode conviver com uma pessoa por 20, 30, 40 anos sem dar sinal — enquanto, silenciosamente, vai danificando o fígado. Por isso o diagnóstico precoce é tão importante.
Como a hepatite C é transmitida?
O vírus da hepatite C (HCV) é transmitido principalmente pelo sangue. As principais formas de contágio são:
- Compartilhamento de agulhas e seringas (uso de drogas injetáveis — responde pela maioria dos casos novos atualmente)
- Transfusões de sangue realizadas antes de 1993 (quando o teste para HCV ainda não era feito em bancos de sangue)
- Procedimentos médicos ou odontológicos com material não adequadamente esterilizado
- Tatuagens e piercings em locais sem biossegurança adequada
- Compartilhamento de objetos cortantes pessoais
- Transmissão sexual: é possível, mas menos eficiente que a do HBV — risco aumenta em relações com sangramento ou com múltiplos parceiros
- Transmissão vertical (mãe para filho): ocorre em cerca de 5% dos casos
O que sente quem tem hepatite C?
Fase aguda
A maioria das pessoas (cerca de 80%) não tem sintomas na fase aguda, que ocorre nas primeiras semanas após a infecção. Quando aparecem, são inespecíficos: cansaço, náusea, dor abdominal leve. Icterícia é rara.
Cerca de 25% dos pacientes eliminam o vírus espontaneamente durante essa fase. Os outros 75% evoluem para infecção crônica.
Fase crônica
Durante décadas, o vírus pode estar presente sem causar sintomas. Quando surgem, geralmente já indicam comprometimento hepático avançado:
- Fadiga crônica (muito comum mesmo antes da cirrose)
- Dor ou desconforto leve no hipocôndrio direito
- Icterícia
- Ascite (acúmulo de líquido na barriga)
- Sangramento digestivo
- Confusão mental (encefalopatia hepática)
Quem deve fazer o teste para hepatite C?
O Ministério da Saúde recomenda a testagem para hepatite C em:
- Pessoas nascidas entre 1945 e 1975 (geração que foi mais exposta antes dos testes em bancos de sangue)
- Quem usou drogas injetáveis em algum momento da vida
- Quem recebeu transfusão de sangue antes de 1993
- Pessoas com HIV
- Profissionais de saúde com exposição percutânea a sangue
- Parceiros sexuais de pessoas com HCV
- Filhos de mães com hepatite C
O teste é simples — um exame de sangue. No SUS, é oferecido gratuitamente em unidades de saúde.
Como é feito o diagnóstico?
- Anti-HCV: detecta anticorpos contra o vírus — indica contato prévio. Um resultado positivo não confirma infecção ativa, pois pode ser de uma infecção já curada.
- HCV-RNA (carga viral): detecta o material genético do vírus. Se positivo, confirma infecção ativa.
- Genotipagem do HCV: identifica qual dos 6 genótipos do vírus está presente — importante para escolha do esquema de tratamento.
Além do diagnóstico virológico, é essencial avaliar o estado do fígado: enzimas hepáticas, coagulação, albumina, ultrassonografia e, principalmente, a elastografia hepática (ou biópsia) para estadiar o grau de fibrose.
O tratamento da hepatite C hoje
A revolução no tratamento da hepatite C aconteceu a partir de 2014, com a chegada dos antivirais de ação direta (DAAs). Esses medicamentos atuam diretamente no vírus, bloqueando sua replicação. São tomados por via oral, uma vez ao dia, com pouquíssimos efeitos colaterais — uma mudança radical em relação ao tratamento usado anteriormente.
A taxa de cura (chamada de Resposta Virológica Sustentada — RVS) é superior a 95% em praticamente todos os perfis de pacientes. Cura aqui significa eliminação completa do vírus do organismo.
No Brasil, o tratamento está disponível gratuitamente pelo SUS para todos os pacientes com indicação. No consultório particular, o acesso é imediato, com possibilidade de iniciar o tratamento rapidamente após o diagnóstico.
Importante: curar a hepatite C para o vírus, mas o fígado que já ficou cirrótico não reverte completamente. Por isso o diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais — antes da cirrose se instalar.