Dra. Maria Cristina Mariani

Se há uma história que mudou na medicina nas últimas décadas, é a da hepatite C. Durante muito tempo, era uma doença praticamente sem tratamento — os esquemas terapêuticos eram longos, mal tolerados e com taxa de sucesso baixa. Hoje, com os antivirais de ação direta, a cura da hepatite C é alcançada em mais de 95% dos casos, em um tratamento de 8 a 12 semanas, tomado por via oral.

O problema é que muita gente ainda não sabe que tem. A hepatite C pode conviver com uma pessoa por 20, 30, 40 anos sem dar sinal — enquanto, silenciosamente, vai danificando o fígado. Por isso o diagnóstico precoce é tão importante.

Como a hepatite C é transmitida?

O vírus da hepatite C (HCV) é transmitido principalmente pelo sangue. As principais formas de contágio são:

  • Compartilhamento de agulhas e seringas (uso de drogas injetáveis — responde pela maioria dos casos novos atualmente)
  • Transfusões de sangue realizadas antes de 1993 (quando o teste para HCV ainda não era feito em bancos de sangue)
  • Procedimentos médicos ou odontológicos com material não adequadamente esterilizado
  • Tatuagens e piercings em locais sem biossegurança adequada
  • Compartilhamento de objetos cortantes pessoais
  • Transmissão sexual: é possível, mas menos eficiente que a do HBV — risco aumenta em relações com sangramento ou com múltiplos parceiros
  • Transmissão vertical (mãe para filho): ocorre em cerca de 5% dos casos

O que sente quem tem hepatite C?

Fase aguda

A maioria das pessoas (cerca de 80%) não tem sintomas na fase aguda, que ocorre nas primeiras semanas após a infecção. Quando aparecem, são inespecíficos: cansaço, náusea, dor abdominal leve. Icterícia é rara.

Cerca de 25% dos pacientes eliminam o vírus espontaneamente durante essa fase. Os outros 75% evoluem para infecção crônica.

Fase crônica

Durante décadas, o vírus pode estar presente sem causar sintomas. Quando surgem, geralmente já indicam comprometimento hepático avançado:

  • Fadiga crônica (muito comum mesmo antes da cirrose)
  • Dor ou desconforto leve no hipocôndrio direito
  • Icterícia
  • Ascite (acúmulo de líquido na barriga)
  • Sangramento digestivo
  • Confusão mental (encefalopatia hepática)

Quem deve fazer o teste para hepatite C?

O Ministério da Saúde recomenda a testagem para hepatite C em:

  • Pessoas nascidas entre 1945 e 1975 (geração que foi mais exposta antes dos testes em bancos de sangue)
  • Quem usou drogas injetáveis em algum momento da vida
  • Quem recebeu transfusão de sangue antes de 1993
  • Pessoas com HIV
  • Profissionais de saúde com exposição percutânea a sangue
  • Parceiros sexuais de pessoas com HCV
  • Filhos de mães com hepatite C

O teste é simples — um exame de sangue. No SUS, é oferecido gratuitamente em unidades de saúde.

Como é feito o diagnóstico?

  • Anti-HCV: detecta anticorpos contra o vírus — indica contato prévio. Um resultado positivo não confirma infecção ativa, pois pode ser de uma infecção já curada.
  • HCV-RNA (carga viral): detecta o material genético do vírus. Se positivo, confirma infecção ativa.
  • Genotipagem do HCV: identifica qual dos 6 genótipos do vírus está presente — importante para escolha do esquema de tratamento.

Além do diagnóstico virológico, é essencial avaliar o estado do fígado: enzimas hepáticas, coagulação, albumina, ultrassonografia e, principalmente, a elastografia hepática (ou biópsia) para estadiar o grau de fibrose.

O tratamento da hepatite C hoje

A revolução no tratamento da hepatite C aconteceu a partir de 2014, com a chegada dos antivirais de ação direta (DAAs). Esses medicamentos atuam diretamente no vírus, bloqueando sua replicação. São tomados por via oral, uma vez ao dia, com pouquíssimos efeitos colaterais — uma mudança radical em relação ao tratamento usado anteriormente.

A taxa de cura (chamada de Resposta Virológica Sustentada — RVS) é superior a 95% em praticamente todos os perfis de pacientes. Cura aqui significa eliminação completa do vírus do organismo.

No Brasil, o tratamento está disponível gratuitamente pelo SUS para todos os pacientes com indicação. No consultório particular, o acesso é imediato, com possibilidade de iniciar o tratamento rapidamente após o diagnóstico.

Importante: curar a hepatite C para o vírus, mas o fígado que já ficou cirrótico não reverte completamente. Por isso o diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais — antes da cirrose se instalar.