Dra. Maria Cristina Mariani https://dramariacristinagastro.com Gastroenterologista Tue, 26 May 2026 00:11:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://dramariacristinagastro.com/wp-content/uploads/2026/03/cropped-cropped-Untitled-68-x-60-px-32x32.png Dra. Maria Cristina Mariani https://dramariacristinagastro.com 32 32 Disbiose Intestinal e Teste Respiratório: quando a sua flora intestinal sai do equilíbrio (e como saber) https://dramariacristinagastro.com/disbiose-intestinal/ Mon, 18 May 2026 12:05:41 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=444

Nos últimos anos, a microbiota intestinal — o conjunto de bilhões de microrganismos que vivem no nosso intestino — virou um dos temas mais fascinantes da medicina moderna. Cada vez mais estudos mostram que esse ecossistema microscópico tem um papel central não só na digestão, mas na imunidade, no humor, no peso e até no risco de várias doenças.

E quando esse ecossistema sai do equilíbrio? Chamamos isso de disbiose. No consultório, recebo cada vez mais pacientes que chegam com queixas vagas — inchaço que não passa, gases em excesso, alternância de intestino — e nos quais o teste respiratório acaba sendo fundamental para entender o que está acontecendo.

O que é a microbiota intestinal e por que ela importa?

Vivem no nosso intestino grosso mais de 100 trilhões de microrganismos — bactérias, fungos, vírus e outros — em uma convivência que geralmente é de benefício mútuo. Essas bactérias:

  • Ajudam a digerir fibras e a produzir ácidos graxos de cadeia curta (fundamentais para a saúde do cólon)
  • Produzem vitaminas (como vitamina K e algumas do complexo B)
  • Treinam e modulam o sistema imunológico
  • Protegem contra a colonização de bactérias patogênicas
  • Participam da comunicação com o cérebro pelo eixo intestino-cérebro
  • Influenciam o metabolismo e o peso corporal

O que é disbiose?

Disbiose é o desequilíbrio da microbiota intestinal — uma alteração na quantidade, diversidade ou composição das bactérias que vivem no intestino. Pode haver redução das bactérias benéficas, aumento de bactérias potencialmente prejudiciais, ou perda de diversidade bacteriana.

É importante deixar claro: disbiose não é uma doença com CID — é um estado funcional que pode estar associado a várias condições, mas que exige uma avaliação contextualizada.

O que causa disbiose?

  • Uso de antibióticos: são a causa mais clássica — eliminam bactérias patogênicas, mas também as benéficas
  • Dieta pobre em fibras e rica em ultraprocessados
  • Estresse crônico — o eixo intestino-cérebro é bidirecional
  • Sedentarismo
  • Uso de inibidores de bomba de prótons (IBPs) por tempo prolongado
  • Doenças gastrointestinais: SII, DII, doença celíaca
  • Cirurgias abdominais
  • Envelhecimento
  • Consumo excessivo de álcool

O que sente quem tem disbiose?

Os sintomas são inespecíficos — o que torna o diagnóstico desafiador:

  • Inchaço abdominal, especialmente após as refeições
  • Excesso de gases (flatulência e arrotos)
  • Alternância entre diarreia e constipação
  • Dores abdominais em cólica
  • Sensação de digestão lenta
  • Fadiga e cansaço sem causa aparente
  • Queda de imunidade — resfriados frequentes
  • Alterações de humor, ansiedade, dificuldade de concentração

Esses sintomas se sobrepõem muito com os da SII, da intolerância à lactose, da intolerância ao glúten e do supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO). É por isso que a investigação adequada é fundamental.

Supercrescimento bacteriano (SIBO): a disbiose do intestino delgado

Uma condição específica que merece atenção especial é o SIBO — Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou supercrescimento bacteriano do intestino delgado. Normalmente, o intestino delgado tem relativamente poucas bactérias. No SIBO, bactérias do cólon ‘sobem’ e colonizam o intestino delgado — ou as poucas bactérias que já estão lá proliferam de forma excessiva.

O resultado é uma fermentação anormal dos alimentos antes que sejam absorvidos, gerando sintomas como inchaço intenso, gases, diarreia e, em casos graves, má absorção de nutrientes (deficiência de vitamina B12, ferro, vitaminas lipossolúveis).

Existe também o SIFO — supercrescimento fúngico do intestino delgado — que pode causar sintomas semelhantes e exige investigação específica.

O teste respiratório: o exame que desvenda o que está fermentando no seu intestino

O teste respiratório (Hydrogen Breath Test ou Urea Breath Test) é um dos exames mais úteis para investigar disbiose e SIBO, além de intolerâncias alimentares. Realizo esse exame no consultório e ele tem sido um divisor de águas para muitos pacientes.

Como funciona?

O princípio é simples e elegante: bactérias produzem gases (hidrogênio e metano) ao fermentar certos substratos. Esses gases são absorvidos pelo intestino, chegam ao sangue e são exalados pelos pulmões. Medindo os gases no ar expirado ao longo do tempo, conseguimos avaliar o que está acontecendo dentro do intestino.

Tipos de teste respiratório

  • Teste do hidrogênio e metano com lactulose ou glicose: detecta SIBO. O paciente ingere uma solução do substrato e sopra em intervalos regulares por 2 a 3 horas. A elevação precoce dos gases indica proliferação bacteriana no intestino delgado.
  • Teste respiratório para intolerância à lactose: usa lactose como substrato. A elevação do hidrogênio indica que a lactose não está sendo digerida e está sendo fermentada por bactérias.
  • Teste respiratório para intolerância à frutose: usa frutose. Similar ao de lactose.
  • Teste da ureia marcada (Urea Breath Test — UBT): específico para detectar H. pylori. O paciente ingere cápsulas com ureia marcada com carbono 13 — se o H. pylori estiver presente, ele quebra a ureia e o carbono marcado aparece no ar expirado.

Como é feito o exame?

O preparo é simples: jejum de pelo menos 8 horas, suspensão de antibióticos por 4 semanas antes (no caso dos testes de SIBO), e dieta restrita no dia anterior. O exame é realizado no consultório, dura entre 2 e 3 horas para o teste de SIBO, e é completamente não invasivo — sem agulhas, sem sedação, sem desconforto.

Limitações

O teste respiratório tem limitações — nem sempre tem 100% de sensibilidade e especificidade. O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto clínico pelo médico. Um resultado positivo para SIBO, por exemplo, precisa ser correlacionado com os sintomas e outros dados clínicos.

Como tratar a disbiose e o SIBO?

Tratamento do SIBO

  • Antibióticos: rifaximina é o antibiótico de escolha — age localmente no intestino com pouca absorção sistêmica. Nos casos com elevação de metano (IMO — intestinal methanogen overgrowth), usa-se rifaximina + neomicina.
  • Herbais: algumas combinações de ervas com propriedades antimicrobianas (berberina, óleo de orégano, alicina) mostraram resultados em estudos, mas com menos evidência que os antibióticos.
  • Dieta baixa em FODMAPs ou dieta específica para SIBO: reduz o substrato disponível para fermentação bacteriana
  • Probióticos: alguns estudos mostram benefício após o tratamento antibiótico — mas seu uso durante o SIBO ativo é controverso
  • Tratamento da causa subjacente: SIBO tende a recorrer se a causa não for corrigida (uso de IBPs, dismotilidade intestinal, aderências cirúrgicas, entre outras)

Cuidado com a microbiota a longo prazo

  • Aumentar a ingestão de fibras (prebióticos): alimentam as bactérias benéficas — alho, cebola, banana verde, aveia, chicória
  • Alimentos fermentados: iogurte natural, kefir, kombucha, chucrute — fontes de probióticos naturais
  • Dieta variada e colorida: diversidade alimentar = diversidade bacteriana
  • Reduzir ultraprocessados e açúcar
  • Evitar antibióticos desnecessários
  • Controlar o estresse
  • Manter atividade física regular

Se você convive com inchaço persistente, gases, alteração intestinal ou outros sintomas digestivos que ninguém conseguiu explicar ainda, vale muito a pena uma avaliação completa — que pode incluir o teste respiratório. Muitas vezes, o problema estava no intestino o tempo todo, esperando alguém fazer a pergunta certa.

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Fígado Gorduroso (Esteatose Hepática): o achado de ultrassom que você não pode ignorar https://dramariacristinagastro.com/figado-gorduroso-esteatose-hepatica/ Mon, 18 May 2026 12:00:20 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=441 Provavelmente você chegou aqui depois de fazer um ultrassom e o laudo dizer algo como ‘fígado com ecotextura hiperecogênica, compatível com esteatose’. Ou talvez o seu médico tenha dito que você está com ‘fígado gorduroso’.

A primeira reação costuma ser: ‘mas eu não bebo!’ — e muitas vezes isso é verdade. O fígado gorduroso não é exclusividade de quem consome álcool. Na verdade, a forma mais comum hoje em dia é a esteatose não alcoólica, associada à obesidade, ao sedentarismo e à síndrome metabólica.

Mas o que fazer com esse diagnóstico? É grave? Precisa de tratamento? Deixa eu te explicar.

O que é a esteatose hepática?

Esteatose significa acúmulo de gordura dentro das células do fígado (hepatócitos). O fígado tem naturalmente uma pequena quantidade de gordura, mas quando esse acúmulo ultrapassa 5% das células hepáticas, configuramos a esteatose.

Ela se divide em dois grandes grupos:

  • Esteatose alcoólica: causada pelo consumo excessivo de álcool
  • Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA — ou MASLD, na nomenclatura mais recente): ocorre em pessoas que não consomem álcool de forma significativa, associada à síndrome metabólica

A DHGNA inclui um espectro de doenças:

  • Esteatose simples: apenas acúmulo de gordura, sem inflamação significativa. Prognóstico relativamente benigno.
  • Esteato-hepatite não alcoólica (EHNA/NASH): gordura + inflamação + lesão celular. Pode evoluir para fibrose.
  • Fibrose hepática avançada e cirrose: estágio final em casos não tratados

Quem tem mais risco de ter fígado gorduroso?

  • Pessoas com obesidade ou sobrepeso (especialmente gordura abdominal)
  • Pacientes com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes
  • Pessoas com triglicerídeos ou colesterol alto
  • Hipertensos
  • Sedentários
  • Síndrome dos ovários policísticos
  • Hipotireoidismo
  • Uso de alguns medicamentos (corticoides, tamoxifeno, amiodarona)

O fígado gorduroso dá sintomas?

Na maioria dos casos, especialmente na esteatose simples, não há sintomas. A pessoa descobre por acaso, num exame de rotina. Quando há sintomas, são inespecíficos:

  • Cansaço
  • Peso ou desconforto no lado direito do abdome
  • Sensação de estufamento

Em estágios mais avançados, com fibrose significativa ou cirrose, surgem sinais mais graves: icterícia, ascite, sangramento, confusão mental.

Como avaliar a gravidade do fígado gorduroso?

Nem todo fígado gorduroso é igual. A chave é avaliar o grau de inflamação e fibrose:

  • Exames de sangue: TGO, TGP, gama-GT, fosfatase alcalina, bilirrubinas, albumina, coagulação
  • Ultrassonografia hepática: confirma a esteatose, mas não avalia a fibrose com precisão
  • Elastografia hepática (FibroScan): mede a rigidez do fígado — o exame não invasivo mais preciso para avaliar fibrose. É indolor e rápido.
  • Scores não invasivos: FIB-4, NAFLD Fibrosis Score — calculados a partir de exames de sangue e dados clínicos
  • Biópsia hepática: padrão-ouro para diagnóstico de EHNA e estadiamento da fibrose, mas reservada para casos selecionados

Fígado gorduroso tem tratamento?

Sim — e a boa notícia é que, nos estágios iniciais, é completamente reversível com mudanças de estilo de vida:

Perda de peso

É a intervenção mais eficaz. Uma perda de 7 a 10% do peso corporal já é suficiente para reduzir significativamente a inflamação e a gordura no fígado. Perda acima de 10% pode até reverter a fibrose nos estágios iniciais.

Atividade física

Exercício aeróbico regular (caminhada rápida, natação, bicicleta) e treino de força reduzem a gordura hepática mesmo sem perda de peso significativa.

Alimentação

  • Reduzir açúcar e alimentos ultraprocessados
  • Eliminar bebidas açucaradas e sucos industrializados
  • Dieta mediterrânea tem boas evidências para esteatose
  • Reduzir ou eliminar o álcool (mesmo na DHGNA, o álcool piora o fígado)

Controle das doenças associadas

Tratar diabetes, hipertensão, dislipidemia — são partes integrais do tratamento da esteatose.

Medicamentos

Até recentemente, não havia medicamento aprovado especificamente para EHNA. Em 2024, foi aprovado um tratamento pelo FDA para pacientes com EHNA com fibrose significativa — um marco importante. No Brasil, aguardamos a aprovação. Outras opções já estão disponíveis para o tratamento.

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Doença Inflamatória Intestinal (Crohn e Retocolite): quando o intestino vira campo de batalha https://dramariacristinagastro.com/doenca-inflamatoria-intestinal/ Mon, 18 May 2026 11:56:10 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=438

Lembro de uma paciente de 23 anos que chegou ao consultório com fezes com sangue há três semanas. Já tinha ido a duas emergências — em ambas, disseram que era hemorroida. Ela estava emagrecendo, ia ao banheiro mais de dez vezes por dia e mal conseguia sair de casa. Fizemos a colonoscopia: retocolite ulcerativa extensa.

Essa história é mais comum do que parece. A Doença Inflamatória Intestinal — que inclui a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa — ainda é pouco conhecida pelo público geral, frequentemente confundida com outras condições, e muitas vezes diagnosticada com meses ou anos de atraso. Este artigo é para mudar isso.

O que é a Doença Inflamatória Intestinal?

A DII é um conjunto de doenças em que o sistema imune ataca o próprio trato digestivo, causando inflamação crônica. Essa inflamação não é passageira — ela vem e vai, mas o intestino nunca fica completamente livre dela sem tratamento.

As duas principais doenças são:

  • Retocolite Ulcerativa (RCU): inflamação restrita ao intestino grosso (cólon) e reto. Começa no reto e se estende de forma contínua para cima. Compromete apenas a camada mais superficial da parede intestinal.
  • Doença de Crohn (DC): pode comprometer qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus. A inflamação afeta todas as camadas da parede intestinal e pode ser ‘em saltos’ — com áreas acometidas intercaladas com áreas saudáveis. É mais comum no íleo terminal (final do intestino delgado) e no cólon.

Por que a DII acontece?

A causa exata ainda não é completamente conhecida, mas sabe-se que é uma combinação de fatores:

  • Predisposição genética: pessoas com parentes de primeiro grau com DII têm risco aumentado
  • Resposta imune desregulada: o sistema imune confunde as bactérias da microbiota intestinal com inimigos e ataca
  • Microbiota intestinal alterada: desequilíbrios na flora intestinal parecem contribuir
  • Fatores ambientais: tabagismo (que piora o Crohn, mas tem efeito curiosamente protetor na retocolite), dieta ocidentalizada, uso de antibióticos na infância, urbanização

O que sente quem tem DII?

Retocolite Ulcerativa

  • Diarreia com sangue (sinal mais característico)
  • Muco nas fezes
  • Urgência para evacuar — às vezes a pessoa não consegue segurar
  • Cólicas abdominais, especialmente antes da evacuação
  • Tenesmo (sensação de que precisa evacuar mesmo o reto estando vazio)
  • Nas formas graves: febre, emagrecimento, anemia

Doença de Crohn

  • Dor abdominal — frequentemente no quadrante inferior direito, podendo simular apendicite
  • Diarreia (geralmente sem sangue nas formas de intestino delgado; com sangue quando o cólon é comprometido)
  • Emagrecimento e perda de apetite
  • Febre em atividade da doença
  • Fadiga
  • Manifestações perianais: fístulas, abscessos, fissuras — muito características do Crohn

Manifestações extraintestinais (em ambas)

A DII pode afetar outros órgãos além do intestino:

  • Articulações: artrite, artralgia
  • Pele: eritema nodoso, pioderma gangrenoso
  • Olhos: uveíte, episclerite
  • Fígado: colangite esclerosante primária (mais associada à RCU)

Como é feito o diagnóstico da DII?

O diagnóstico exige uma combinação de dados clínicos, laboratoriais, endoscópicos e histológicos (biópsias). Não existe um único exame que feche o diagnóstico sozinho.

  • Colonoscopia com biópsia: é o exame central. Permite visualizar as lesões, avaliar a extensão da doença e coletar amostras para análise microscópica.
  • Enteroscopia e cápsula endoscópica: para avaliar o intestino delgado no Crohn
  • Exames de imagem: enterografia por tomografia ou ressonância magnética — avalia espessura da parede intestinal, fístulas e abscessos
  • Calprotectina fecal: marcador de inflamação intestinal. Muito útil para distinguir DII de SII e para monitorar a resposta ao tratamento.
  • Exames de sangue: hemograma (anemia, leucocitose), PCR, VHS, albumina, ferro
  • Pesquisa de infecções: sempre necessário descartar causas infecciosas antes de confirmar DII

Tratamento: como a DII é controlada?

A DII é uma doença crônica — não tem cura, mas tem controle. O objetivo do tratamento é alcançar e manter a remissão (ausência de atividade da doença) e prevenir complicações.

Medicamentos

  • Aminossalicilatos (mesalazina): primeira linha na retocolite ulcerativa leve a moderada
  • Corticoides: induzem remissão em crises, mas não podem ser usados indefinidamente
  • Imunossupressores (azatioprina, 6-mercaptopurina, metotrexato): mantêm a remissão
  • Biológicos: grande avanço no tratamento da DII. Anti-TNF (infliximabe, adalimumabe), anti-integrinas (vedolizumabe), anti-interleucinas (ustekinumabe, risankizumabe). Indicados nas formas moderadas a graves ou quando os imunossupressores convencionais não funcionam.
  • Moléculas pequenas (tofacitinibe, upadacitinibe): opção oral com bons resultados na retocolite

Cirurgia

Na retocolite, a colectomia total cura a doença intestinal — mas exige reconstrução do trânsito. No Crohn, a cirurgia é reservada para complicações (estenoses, fístulas, abscessos), pois a doença pode recorrer em outras partes do intestino.

Estilo de vida

  • Parar de fumar (fundamental no Crohn — o cigarro ativa a doença)
  • Dieta equilibrada — não existe ‘a dieta do Crohn’, mas evitar alimentos que pioram os sintomas individualmente é razoável
  • Suporte psicológico — viver com uma doença crônica tem impacto emocional real
  • Vacinação em dia — pacientes em uso de imunossupressores ou biológicos precisam de atenção especial ao calendário vacinal

Se você se identificou com os sintomas descritos aqui, não espere. O diagnóstico precoce muda o curso da doença. Venha ao consultório — juntos podemos construir um plano de tratamento que permita você viver bem.

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Hepatite C: a doença que ficou décadas sem diagnóstico — e que hoje tem cura https://dramariacristinagastro.com/hepatite-c/ Mon, 18 May 2026 11:53:49 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=435 Se há uma história que mudou na medicina nas últimas décadas, é a da hepatite C. Durante muito tempo, era uma doença praticamente sem tratamento — os esquemas terapêuticos eram longos, mal tolerados e com taxa de sucesso baixa. Hoje, com os antivirais de ação direta, a cura da hepatite C é alcançada em mais de 95% dos casos, em um tratamento de 8 a 12 semanas, tomado por via oral.

O problema é que muita gente ainda não sabe que tem. A hepatite C pode conviver com uma pessoa por 20, 30, 40 anos sem dar sinal — enquanto, silenciosamente, vai danificando o fígado. Por isso o diagnóstico precoce é tão importante.

Como a hepatite C é transmitida?

O vírus da hepatite C (HCV) é transmitido principalmente pelo sangue. As principais formas de contágio são:

  • Compartilhamento de agulhas e seringas (uso de drogas injetáveis — responde pela maioria dos casos novos atualmente)
  • Transfusões de sangue realizadas antes de 1993 (quando o teste para HCV ainda não era feito em bancos de sangue)
  • Procedimentos médicos ou odontológicos com material não adequadamente esterilizado
  • Tatuagens e piercings em locais sem biossegurança adequada
  • Compartilhamento de objetos cortantes pessoais
  • Transmissão sexual: é possível, mas menos eficiente que a do HBV — risco aumenta em relações com sangramento ou com múltiplos parceiros
  • Transmissão vertical (mãe para filho): ocorre em cerca de 5% dos casos

O que sente quem tem hepatite C?

Fase aguda

A maioria das pessoas (cerca de 80%) não tem sintomas na fase aguda, que ocorre nas primeiras semanas após a infecção. Quando aparecem, são inespecíficos: cansaço, náusea, dor abdominal leve. Icterícia é rara.

Cerca de 25% dos pacientes eliminam o vírus espontaneamente durante essa fase. Os outros 75% evoluem para infecção crônica.

Fase crônica

Durante décadas, o vírus pode estar presente sem causar sintomas. Quando surgem, geralmente já indicam comprometimento hepático avançado:

  • Fadiga crônica (muito comum mesmo antes da cirrose)
  • Dor ou desconforto leve no hipocôndrio direito
  • Icterícia
  • Ascite (acúmulo de líquido na barriga)
  • Sangramento digestivo
  • Confusão mental (encefalopatia hepática)

Quem deve fazer o teste para hepatite C?

O Ministério da Saúde recomenda a testagem para hepatite C em:

  • Pessoas nascidas entre 1945 e 1975 (geração que foi mais exposta antes dos testes em bancos de sangue)
  • Quem usou drogas injetáveis em algum momento da vida
  • Quem recebeu transfusão de sangue antes de 1993
  • Pessoas com HIV
  • Profissionais de saúde com exposição percutânea a sangue
  • Parceiros sexuais de pessoas com HCV
  • Filhos de mães com hepatite C

O teste é simples — um exame de sangue. No SUS, é oferecido gratuitamente em unidades de saúde.

Como é feito o diagnóstico?

  • Anti-HCV: detecta anticorpos contra o vírus — indica contato prévio. Um resultado positivo não confirma infecção ativa, pois pode ser de uma infecção já curada.
  • HCV-RNA (carga viral): detecta o material genético do vírus. Se positivo, confirma infecção ativa.
  • Genotipagem do HCV: identifica qual dos 6 genótipos do vírus está presente — importante para escolha do esquema de tratamento.

Além do diagnóstico virológico, é essencial avaliar o estado do fígado: enzimas hepáticas, coagulação, albumina, ultrassonografia e, principalmente, a elastografia hepática (ou biópsia) para estadiar o grau de fibrose.

O tratamento da hepatite C hoje

A revolução no tratamento da hepatite C aconteceu a partir de 2014, com a chegada dos antivirais de ação direta (DAAs). Esses medicamentos atuam diretamente no vírus, bloqueando sua replicação. São tomados por via oral, uma vez ao dia, com pouquíssimos efeitos colaterais — uma mudança radical em relação ao tratamento usado anteriormente.

A taxa de cura (chamada de Resposta Virológica Sustentada — RVS) é superior a 95% em praticamente todos os perfis de pacientes. Cura aqui significa eliminação completa do vírus do organismo.

No Brasil, o tratamento está disponível gratuitamente pelo SUS para todos os pacientes com indicação. No consultório particular, o acesso é imediato, com possibilidade de iniciar o tratamento rapidamente após o diagnóstico.

Importante: curar a hepatite C para o vírus, mas o fígado que já ficou cirrótico não reverte completamente. Por isso o diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais — antes da cirrose se instalar.

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Hepatite B: o que você precisa saber sobre essa doença que muitas vezes não avisa que está lá https://dramariacristinagastro.com/hepatite-b/ Mon, 18 May 2026 11:48:23 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=429 Em alguns anos de consultório, um dos diagnósticos que mais me causa impacto é o da hepatite B crônica. Não pela gravidade em si — que é real — mas pela surpresa que causa no paciente. ‘Doutora, mas eu não sinto nada.’ É exatamente esse o problema: a hepatite B, na maioria das vezes, é silenciosa.

Só no Brasil, estima-se que mais de 1,3 milhão de pessoas vivam com hepatite B — e uma parcela significativa delas não sabe. Este artigo é para mudar isso.

O que é a hepatite B e como ela age no fígado?

A hepatite B é uma infecção causada pelo vírus HBV (Hepatitis B Virus). Esse vírus infecta as células do fígado e, dependendo de como o sistema imune responde, pode ser eliminado (hepatite aguda que cura) ou persistir por décadas (hepatite crônica).

Na hepatite crônica, o vírus convive com o organismo em um equilíbrio que pode ser enganoso: por anos, o fígado funciona razoavelmente bem, sem sintomas. Mas a inflamação crônica vai, aos poucos, danificando o tecido hepático — e pode evoluir para cirrose e, em alguns casos, para câncer de fígado (hepatocarcinoma).

Como a hepatite B é transmitida?

O HBV é transmitido pelo contato com sangue, sêmen, secreção vaginal ou outros fluidos corporais de uma pessoa infectada. As formas mais comuns de transmissão incluem:

  • Relações sexuais sem preservativo com pessoa infectada
  • Compartilhamento de agulhas, seringas ou outros equipamentos de uso intravenoso
  • Transmissão vertical: de mãe infectada para o bebê durante o parto
  • Procedimentos médicos ou odontológicos com material não esterilizado adequadamente
  • Compartilhamento de objetos cortantes (giletes, alicates de cutícula, piercing)

O vírus NÃO é transmitido pelo abraço, beijo, aperto de mão, talheres compartilhados, tosse ou espirro.

O que sente quem tem hepatite B?

Hepatite B aguda

Quando a infecção é recente, alguns pacientes desenvolvem sintomas entre 1 e 4 meses após a exposição:

  • Fadiga intensa
  • Náuseas e vômitos
  • Dor abdominal no lado direito do abdome
  • Icterícia (olhos e pele amarelados)
  • Urina escura (cor de chá ou Coca-Cola)
  • Fezes claras (cor de massa de modelar)

Em adultos imunocompetentes, mais de 90% dos casos de hepatite B aguda curam espontaneamente, com o sistema imune eliminando o vírus.

Hepatite B crônica

A maioria dos pacientes com hepatite B crônica não tem sintomas até estágios avançados da doença. Quando aparecem, indicam comprometimento hepático já significativo: cansaço persistente, inchaço abdominal, icterícia, sangramento fácil.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é feito por exames de sangue. Os principais marcadores sorológicos são:

  • HBsAg (antígeno de superfície): quando positivo, indica infecção ativa — aguda ou crônica. É o principal marcador de diagnóstico.
  • Anti-HBs: quando positivo, indica imunidade — por vacinação ou infecção curada
  • Anti-HBc IgM: indica infecção recente/aguda
  • Anti-HBc IgG: indica contato prévio com o vírus
  • HBeAg e Anti-HBe: indicam o grau de replicação viral
  • HBV-DNA (carga viral): quantifica o vírus circulante — fundamental para decisão terapêutica

Além do diagnóstico, a avaliação do fígado é essencial: enzimas hepáticas (TGO, TGP, gama-GT), bilirrubinas, coagulação, albumina e imagem (ultrassonografia, elastografia hepática para avaliar fibrose).

Hepatite B tem tratamento?

Sim. A hepatite B crônica tem tratamento eficaz, embora não seja possível eliminar completamente o vírus em todos os casos. O objetivo do tratamento é suprimir a replicação viral, proteger o fígado da inflamação e prevenir a progressão para cirrose e câncer.

Os medicamentos disponíveis incluem:

  • Análogos de nucleosídeos/nucleotídeos (tenofovir, entecavir): são os medicamentos de primeira linha. Tomados por via oral, uma vez ao dia, com excelente tolerância. Em muitos casos, precisam ser usados por muitos anos ou indefinidamente.
  • Interferon peguilado: opção para um subgrupo de pacientes, com duração definida de tratamento. Aplicado por injeção, tem mais efeitos colaterais.

Nem todos os pacientes com hepatite B crônica precisam de tratamento imediato — isso depende da carga viral, do grau de inflamação hepática e do estado imunológico. Por isso o acompanhamento regular com hepatologista ou gastroenterologista é fundamental.

A vacina funciona?

Sim, e é altamente eficaz. A vacina contra hepatite B faz parte do calendário nacional de vacinação no Brasil e é oferecida gratuitamente para todas as faixas etárias. São 3 doses (0, 1 e 6 meses). A proteção é de longa duração — na maioria dos vacinados, dura décadas.

Se você não foi vacinado ou não sabe se foi, procure sua UBS ou o médico para verificar sua situação. A vacinação é a melhor forma de prevenção.

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Constipação Intestinal: quando o intestino trava e o que fazer https://dramariacristinagastro.com/constipacao-intestinal/ Mon, 18 May 2026 11:45:16 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=422 Constipação — ou intestino preso — é um dos problemas digestivos mais comuns que existem. Estima-se que afete cerca de 20% da população brasileira, sendo mais frequente em mulheres e em idosos. Mesmo assim, é um assunto que muita gente tem vergonha de mencionar — e acaba sofrendo em silêncio ou se automedicando com laxativos por anos.

Neste artigo vou explicar quando o intestino está realmente ‘preso’, quais são as causas mais comuns e como tratar de forma segura e eficaz.

Quando o intestino está mesmo constipado?

Existe um mito de que ‘evacuar todo dia é obrigação’. Na verdade, o que é normal varia bastante de pessoa para pessoa — de três vezes ao dia a três vezes por semana. O diagnóstico médico de constipação usa critérios mais objetivos:

  • Menos de 3 evacuações por semana
  • Fezes endurecidas ou em bolinhas (tipo 1 ou 2 na Escala de Bristol)
  • Esforço intenso para evacuar
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Sensação de bloqueio ou obstrução
  • Necessidade de manobras digitais para facilitar a saída

Para o diagnóstico de constipação crônica, esses critérios devem estar presentes por pelo menos 3 meses.

O que pode estar causando seu intestino preso?

Causas mais comuns

  • Dieta pobre em fibras: o Brasil ainda consome muito menos fibras do que o recomendado
  • Ingestão insuficiente de água
  • Sedentarismo: a atividade física estimula o movimento intestinal
  • Ignorar o estímulo de evacuação repetidamente
  • Estresse e ansiedade

Causas secundárias que precisam de investigação

  • Hipotireoidismo
  • Diabetes mellitus
  • Doença de Parkinson
  • Síndrome do intestino irritável com predominância de constipação
  • Medicamentos: antidepressivos, opioides, antiácidos com alumínio, antiespasmódicos
  • Disfunção do assoalho pélvico: o músculo que controla a evacuação não relaxa adequadamente
  • Megacólon e outras alterações estruturais

Constipação de início recente, associada a emagrecimento, sangue nas fezes ou histórico familiar de câncer colorretal, deve ser investigada com colonoscopia com urgência.

Como o médico avalia a constipação?

A avaliação começa com uma história detalhada — quando começou, como são as fezes, quais medicamentos a pessoa usa. Os exames dependem das características do caso:

  • Exames de sangue: para descartar hipotireoidismo, diabetes, anemia
  • Colonoscopia: quando há sinais de alerta ou nas pessoas acima de 50 anos
  • Estudo do trânsito colônico: ingere-se cápsulas com marcadores e acompanha-se sua progressão por raio-X. Avalia se o cólon funciona de forma lenta.
  • Manometria anorretal: avalia o funcionamento dos músculos do canal anal
  • Defecografia: exame de imagem que avalia o mecanismo de evacuação

O que funciona para tratar a constipação?

1. Aumentar a ingestão de fibras

A recomendação é de 25 a 35 g de fibras por dia. As principais fontes são frutas (mamão, ameixa, laranja com bagaço), vegetais, legumes, aveia, chia e linhaça. O aumento deve ser gradual para evitar gases e desconforto.

2. Beber mais água

Pelo menos 1,5 a 2 litros de água por dia. Sem hidratação adequada, as fibras não funcionam — pioram a constipação.

3. Atividade física regular

Caminhada diária já faz diferença. O movimento corporal estimula as contrações intestinais.

4. Não ignorar o reflexo gastrocólico

O intestino tende a se movimentar mais logo após as refeições. Tente sentar no banheiro nesse período, sem pressa, sem celular, sem esforço excessivo.

5. Laxativos — quando usar e qual tipo

  • Osmóticos (macrogol, lactulose): amolecem as fezes retendo água. São seguros para uso prolongado quando indicados.
  • Estimulantes (bisacodil, sene): ativam o movimento do cólon. Para uso pontual — uso crônico sem orientação médica pode ser prejudicial.
  • Emolientes (docusato): amolecem as fezes. Úteis em casos específicos.
  • Secretagogos (linaclotida, plenaxato): medicamentos mais modernos, que estimulam a secreção de líquidos para o intestino. Excelentes resultados em constipação funcional refratária.

6. Fisioterapia pélvica

Quando a constipação está relacionada à disfunção do assoalho pélvico (o músculo não relaxa na hora de evacuar), a fisioterapia especializada — chamada biorretroalimentação ou biofeedback — tem resultados muito bons.

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Dispepsia Funcional: o que fazer quando o estômago incomoda sem causa aparente https://dramariacristinagastro.com/dispepsia-funcional/ Mon, 18 May 2026 11:29:47 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=411 ‘Doutora, meu estômago é muito sensível. Qualquer coisa que como, sinto desconforto. Já fiz endoscopia e disseram que está normal. Mas normal não é o que eu sinto.’ Essa é uma das descrições mais comuns que ouço no consultório — e ela descreve perfeitamente a dispepsia funcional.

Dispepsia é um termo médico para sintomas que surgem na parte de cima do abdome — aquela região entre o umbigo e o osso esterno. Quando esses sintomas existem sem uma causa estrutural identificável (como úlcera ou tumor), chamamos de dispepsia funcional.

Quais são os sintomas da dispepsia funcional?

Os principais sintomas se dividem em dois padrões, que podem coexistir:

Síndrome do desconforto pós-prandial

  • Sensação de empachamento excessivo após refeições normais
  • Saciedade precoce — a pessoa começa a comer e logo sente que não consegue continuar

Síndrome da dor epigástrica

  • Dor ou ardência na região central do abdome superior, não necessariamente relacionada às refeições

Além desses dois padrões, muitos pacientes também referem:

  • Náuseas (raramente vômito)
  • Arrotos em excesso
  • Sensação de estufamento

O que causa a dispepsia funcional?

Assim como na SII, a dispepsia funcional não tem uma causa única clara. Os mecanismos mais estudados são:

  • Acomodação gástrica prejudicada: o estômago tem dificuldade de ‘relaxar’ para receber o alimento, causando desconforto logo no início da refeição
  • Esvaziamento gástrico lento: o alimento demora mais do que deveria para sair do estômago
  • Hipersensibilidade visceral: o estômago reage de forma exagerada a estímulos normais
  • Presença de H. pylori: em alguns casos, a bactéria pode estar relacionada
  • Fatores psicossociais: ansiedade, depressão e eventos estressantes são frequentemente associados

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico de dispepsia funcional requer:

  • Sintomas presentes há pelo menos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses
  • Ausência de lesão estrutural que explique os sintomas (endoscopia normal)
  • Exclusão de outras causas: refluxo, gastrite por H. pylori, doença celíaca, diabetes (que pode afetar o esvaziamento gástrico)

A endoscopia é indicada especialmente quando há sinais de alerta: emagrecimento, dificuldade para engolir, vômito persistente, sangramento ou histórico familiar de câncer gástrico.

Como tratar a dispepsia funcional?

Abordagem alimentar

  • Refeições menores e mais frequentes
  • Comer devagar, mastigando bem
  • Evitar refeições gordurosas e muito condimentadas
  • Identificar alimentos gatilho individuais

Tratamento medicamentoso

  • Inibidores de bomba de prótons: úteis especialmente na síndrome de dor epigástrica
  • Procinéticos (domperidona, metoclopramida): estimulam o esvaziamento gástrico — úteis na saciedade precoce e empachamento
  • Buspirona: melhora o relaxamento gástrico
  • Antidepressivos tricíclicos em doses baixas: modulam a hipersensibilidade visceral
  • Erradicação de H. pylori: quando o exame confirmar a presença da bactéria

Cuidado com a saúde mental

O tratamento da ansiedade e da depressão, quando presentes, é parte essencial do manejo da dispepsia funcional. Psicoterapia e, quando indicado, medicação psiquiátrica fazem diferença real nos sintomas digestivos.

A dispepsia funcional pode ser frustrante justamente porque os exames estão normais — mas os sintomas são absolutamente reais. O tratamento existe e funciona, mas precisa ser individualizado.

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Síndrome do Intestino Irritável (SII): quando o intestino não dá sossego https://dramariacristinagastro.com/sindrome-do-intestino-irritavel/ Mon, 18 May 2026 11:27:26 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=409 Já perdi a conta de quantas vezes atendi pacientes que chegaram ao consultório com uma mistura de alívio e exasperação: alívio por finalmente ter um nome para o que sentiam há anos; exasperação porque os exames que fizeram antes estavam todos normais, e ninguém tinha conseguido explicar o problema direito.

A Síndrome do Intestino Irritável é assim. Ela não aparece nos exames de sangue, não tem uma lesão visível à endoscopia, não tem um marcador definitivo. Mas ela existe, incomoda muito, e tem solução — com o diagnóstico certo e o tratamento adequado.

O que é a Síndrome do Intestino Irritável?

A SII é um distúrbio funcional do intestino — isso significa que o intestino funciona de forma anormal, mas sem que haja uma lesão estrutural detectável. O problema está na forma como o intestino se move, como processa os alimentos e como interpreta os sinais internos.

É uma das condições gastrointestinais mais comuns no mundo: estima-se que afete entre 10% e 15% da população global. Acomete mais mulheres do que homens e costuma se manifestar antes dos 50 anos.

Por que o intestino ‘se irrita’? Causas e fatores envolvidos

A SII não tem uma causa única. O que existe é um conjunto de fatores que se somam:

  • Hipersensibilidade visceral: o intestino da pessoa com SII é ‘mais sensível’ a estímulos normais — distensão gasosa, passagem de fezes — que numa pessoa sem a síndrome passariam despercebidos.
  • Alteração na motilidade intestinal: o intestino pode se contrair rápido demais (causando diarreia) ou lento demais (causando constipação).
  • Eixo intestino-cérebro alterado: existe uma comunicação intensa entre o sistema nervoso central e o intestino. Estresse, ansiedade e depressão influenciam diretamente o funcionamento intestinal.
  • Microbiota desequilibrada: alterações na flora intestinal parecem contribuir para os sintomas em muitos pacientes.
  • Gastroenterite prévia: parte das pessoas desenvolve SII após uma infecção intestinal aguda — fenômeno chamado de SII pós-infecciosa.
  • Intolerâncias alimentares: embora não seja uma alergia verdadeira, certos alimentos ricos em FODMAPs (carboidratos fermentáveis) desencadeiam sintomas em muitos pacientes.

O que sente quem tem SII?

Os critérios diagnósticos atuais (Roma IV) exigem dor abdominal recorrente, pelo menos um dia por semana nos últimos três meses, associada a dois ou mais dos seguintes:

  • Relação com a evacuação (a dor melhora ou piora ao evacuar)
  • Mudança na frequência das evacuações
  • Mudança na consistência ou aparência das fezes

Na prática, os pacientes descrevem:

  • Dores em cólica, geralmente no baixo ventre ou em ambos os lados
  • Inchaço e distensão abdominal ao longo do dia
  • Alternância entre diarreia e constipação
  • Fezes com muco
  • Sensação de evacuação incompleta
  • Urgência para evacuar — especialmente pela manhã ou após refeições
  • Gases em excesso

Os sintomas costumam piorar em períodos de estresse ou ansiedade, antes de eventos importantes, e melhorar com o repouso.

A SII NÃO causa sangramento nas fezes, febre, emagrecimento involuntário ou piora progressiva. Se esses sinais estiverem presentes, é preciso investigar outras doenças.

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico de SII é clínico — baseado nos sintomas e na exclusão de outras condições. Não existe um exame único que ‘confirme’ a SII. O médico usa os critérios de Roma IV e solicita exames para descartar outras causas:

  • Hemograma, proteína C-reativa e VHS: para descartar inflamação ou anemia
  • Calprotectina fecal: marcador de inflamação intestinal — se elevada, sugere DII ao invés de SII
  • Pesquisa de parasitas e culturas nas fezes
  • Colonoscopia: indicada quando há sinais de alerta ou histórico familiar de câncer colorretal
  • Teste de intolerância à lactose e ao glúten (doença celíaca)

Tratamento da SII: o que realmente ajuda?

Dieta com baixo teor de FODMAPs

A dieta low-FODMAP é a intervenção com mais evidência científica para a SII. FODMAPs são carboidratos fermentáveis presentes em vários alimentos — feijão, trigo, cebola, alho, maçã, leite, entre outros. A dieta é feita em fases: eliminação, reintrodução gradual e personalização. É orientada por nutricionista.

Tratamento do estresse e da ansiedade

Psicoterapia (especialmente TCC), técnicas de relaxamento e mindfulness têm resultados significativos para muitos pacientes. O eixo intestino-cérebro é real, e cuidar da saúde mental impacta diretamente os sintomas intestinais.

Medicamentos de suporte

  • Antiespasmódicos: para controlar as cólicas (brometo de butilescopolamina, mebeverina)
  • Laxativos osmóticos: para SII com predominância de constipação
  • Antidiarreicos: loperamida para SII com predominância de diarreia
  • Antidepressivos em doses baixas: tricíclicos ou ISRS têm efeito tanto no eixo cérebro-intestino quanto na hipersensibilidade visceral
  • Probióticos: algumas cepas específicas podem ajudar — mas a indicação precisa ser individualizada

Atividade física

Exercício regular melhora a motilidade intestinal, reduz o estresse e melhora a qualidade de vida geral. É uma parte fundamental do tratamento.

SII tem cura?

A SII é uma condição crônica, mas com flutuações — os sintomas podem ficar longos períodos sob controle. Com a combinação certa de dieta, manejo do estresse e, quando necessário, medicação, a grande maioria dos pacientes consegue viver com muita qualidade.

Se você se identificou com o que leu aqui, não deixe de buscar avaliação. O diagnóstico correto é o primeiro passo para você finalmente se sentir bem.

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Gastrite: por que seu estômago dói e o que fazer para melhorar de vez https://dramariacristinagastro.com/gastrite/ Mon, 18 May 2026 11:25:07 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=406 Gastrite é uma das queixas mais comuns que chegam ao meu consultório. Mas o que percebo é que muita gente usa esse termo de forma bastante ampla — qualquer dorzinha no estômago vira ‘gastrite’. Na prática, nem sempre é isso, e é justamente por essa confusão que tantas pessoas ficam meses se tratando do jeito errado.

Neste artigo, vou explicar o que a gastrite é de verdade, como ela se manifesta, o que a causa e — principalmente — como tratá-la de forma correta.

Gastrite: o que é de verdade?

Gastrite é a inflamação da mucosa gástrica — ou seja, do revestimento interno do estômago. Esse revestimento é responsável por proteger as paredes do estômago do próprio ácido que ele produz. Quando ele fica inflamado ou sofre alguma lesão, surgem os sintomas.

Ela pode ser:

  • Aguda: aparece de repente, geralmente ligada a um fator específico (infecção, medicamento, estresse intenso)
  • Crônica: persiste por meses ou anos, muitas vezes com sintomas discretos ou até ausentes por longos períodos

O que causa gastrite? As principais razões

Existem várias causas possíveis, e identificá-las corretamente é fundamental para o tratamento:

  • Infecção por Helicobacter pylori: é a causa mais comum de gastrite crônica no mundo. Essa bactéria vive na mucosa do estômago e provoca inflamação persistente. Estima-se que mais da metade da população mundial seja portadora — mas nem todos desenvolvem sintomas.
  • Uso frequente de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): ibuprofeno, diclofenaco, aspirina — esses medicamentos inibem substâncias que protegem a mucosa, deixando-a vulnerável ao ácido.
  • Uso de corticoides por períodos prolongados
  • Consumo excessivo de álcool
  • Tabagismo
  • Estresse físico intenso (cirurgias, queimaduras graves, internações prolongadas)
  • Doenças autoimunes: em casos raros, o próprio sistema imune ataca as células do estômago (gastrite autoimune)
  • Refluxo biliar: a bile que vem do intestino pode irritar o estômago

O que sente quem tem gastrite?

Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa — e surpreendentemente, algumas pessoas têm gastrite documentada na endoscopia e não sentem absolutamente nada. Mas os sinais mais frequentes são:

  • Dor ou desconforto na região central do abdome superior (epigástrio)
  • Queimação ou ardência no estômago
  • Sensação de estômago vazio ou ‘roendo’ em jejum
  • Náuseas, às vezes com vômito
  • Sensação de estufamento ou peso após comer
  • Perda de apetite
  • Arrotos frequentes

Em casos mais graves, pode haver sangramento — que se manifesta como vômito com aspecto de borra de café ou fezes escuras e com mau cheiro. Isso exige avaliação imediata.

Como o médico confirma o diagnóstico?

O diagnóstico definitivo de gastrite é feito pela endoscopia digestiva alta, que permite visualizar a mucosa do estômago e, se necessário, colher pequenos fragmentos de tecido para biópsia.

Na biópsia, além de avaliar a inflamação, o patologista pode identificar a presença de H. pylori e verificar se há alterações nas células que mereçam acompanhamento.

O teste respiratório (Urea Breath Test) também é uma opção não invasiva muito eficaz para detectar H. pylori — sem precisar de endoscopia.

Como tratar a gastrite?

Erradicação do H. pylori

Quando a gastrite é causada pela bactéria, o tratamento é feito com uma combinação de antibióticos (geralmente claritromicina + amoxicilina ou metronidazol) junto com um inibidor de bomba de prótons. A duração é de 10 a 14 dias, e a confirmação da erradicação é feita com novo teste entre 4 e 8 semanas após o término.

Medicamentos para proteger e cicatrizar a mucosa

  • Inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol, esomeprazol): reduzem a acidez e permitem a cicatrização
  • Antiácidos: alívio rápido dos sintomas
  • Sucralfato: forma uma camada protetora sobre a mucosa lesionada

Mudanças alimentares e de estilo de vida

  • Evitar anti-inflamatórios sempre que possível — se for necessário usá-los, fazer com proteção gástrica
  • Reduzir ou eliminar o álcool
  • Parar de fumar
  • Comer em horários regulares, sem pular refeições
  • Evitar alimentos que irritam: pimentas, frituras, café em excesso, alimentos muito ácidos
  • Gerenciar o estresse — o sistema nervoso tem influência direta na produção de ácido gástrico

Gastrite tem cura?

Depende da causa. A gastrite por H. pylori, após a erradicação bem-sucedida da bactéria, pode curar completamente. A gastrite por uso de anti-inflamatórios melhora quando o medicamento é suspenso ou quando se faz proteção gástrica adequada.

A gastrite crônica autoimune ou associada a atrofia da mucosa exige acompanhamento de longo prazo, com endoscopias periódicas — em especial porque a gastrite atrófica elevou o risco de câncer gástrico.

O ponto fundamental é: gastrite não é para ser tratada por conta própria, com antiácido de farmácia, indefinidamente. Um diagnóstico correto faz toda a diferença.

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Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE): o que é, por que acontece e quando buscar tratamento https://dramariacristinagastro.com/doenca-do-refluxo/ Mon, 18 May 2026 10:49:44 +0000 https://dramariacristinagastro.com/?p=381 Se você está aqui, provavelmente já sentiu aquela queimação que sobe pelo peito depois do almoço, ou aquele gosto amargo na garganta que aparece bem na hora que você deita para dormir. Pois é — esse desconforto tão familiar tem nome: doença do refluxo gastroesofágico, ou simplesmente DRGE.

Atendo muitos pacientes com refluxo no consultório, e uma coisa que sempre chama atenção é que a maioria demorou anos para procurar ajuda. A pessoa vai levando, toma um antiácido de vez em quando, corta a fritura… mas o problema nunca some de vez. E tem um motivo para isso: o refluxo não é só uma questão de ‘comer errado’. É uma condição que precisa de diagnóstico correto e, muitas vezes, de tratamento específico.

Mas afinal, o que acontece no corpo de quem tem refluxo?

Para entender o refluxo, imagine o esôfago como um cano que leva o alimento da boca até o estômago. Na junção entre esse cano e o estômago existe uma espécie de válvula — chamada esfíncter esofágico inferior. Quando tudo funciona bem, essa válvula se abre para a comida passar e fecha logo em seguida, impedindo que o conteúdo ácido do estômago suba de volta.

No refluxo, essa válvula não fecha direito — ou abre na hora errada. Resultado: o ácido do estômago volta para o esôfago, que não tem o mesmo revestimento protetor que o estômago tem. Daí vem a queimação, a irritação, e todos os outros sintomas.

As causas mais comuns dessa disfunção incluem:

  • Hérnia de hiato (quando parte do estômago sobe para o tórax pelo diafragma)
  • Excesso de peso, especialmente gordura abdominal
  • Gravidez
  • Tabagismo
  • Uso frequente de anti-inflamatórios
  • Alimentação rica em gordura, chocolate, café, álcool e alimentos ácidos
  • Refeições volumosas, especialmente antes de deitar

O que uma pessoa com refluxo sente no dia a dia?

Os sintomas do refluxo são mais variados do que a maioria das pessoas imagina. Nem sempre é só aquela queimação clássica:

  • Queimação no peito (azia) que piora deitada ou após as refeições
  • Sensação de que o alimento ‘volta’ para a boca (regurgitação)
  • Gosto amargo ou azedo na boca, especialmente de manhã
  • Dor ou dificuldade para engolir
  • Pigarro constante e sensação de ‘algo preso’ na garganta
  • Tosse seca crônica, sobretudo à noite
  • Rouquidão matinal
  • Chiado no peito (que pode ser confundido com asma)
  • Náuseas após as refeições

Atenção: dor no peito que irradia para o braço esquerdo ou falta de ar intensa devem ser avaliadas com urgência, pois podem indicar problemas cardíacos — não refluxo.

Como o refluxo é diagnosticado?

A maioria dos casos é diagnosticada com base nos sintomas e na resposta ao tratamento inicial. Mas alguns exames são fundamentais para avaliar a extensão do problema:

  • Endoscopia digestiva alta: visualiza diretamente o esôfago, estômago e duodeno. Identifica esofagite (inflamação), hérnia de hiato e a síndrome de Barrett.
  • pHmetria esofágica de 24 horas: mede a acidez dentro do esôfago ao longo de um dia. É o exame mais preciso para confirmar o refluxo e avaliar sua intensidade.
  • Manometria esofágica: avalia a pressão e o funcionamento do esfíncter esofágico. Importante antes de indicar cirurgia.
  • Teste empírico com IBP: em casos típicos, o médico pode iniciar tratamento com inibidores de bomba de prótons e avaliar a resposta.

Por que o refluxo não tratado é sério?

Muita gente não dá muita importância ao refluxo. Mas quando ele é frequente e não tratado, pode causar:

  • Esofagite erosiva: inflamação com lesões visíveis no esôfago
  • Esôfago de Barrett: a mucosa do esôfago muda de tipo celular — essa condição aumenta o risco de câncer de esôfago e precisa de acompanhamento rigoroso
  • Estenose esofágica: cicatrizes que estreitam o esôfago e dificultam a deglutição
  • Laringite crônica e problemas respiratórios recorrentes

Na minha prática, já atendi pacientes que conviveram com refluxo por mais de dez anos sem tratamento e chegaram ao consultório com Barrett instalado. Por isso insisto: não deixe para depois.

Tratamento: o que funciona de verdade?

Mudanças no estilo de vida (indispensáveis)

  • Comer em porções menores, com mais frequência
  • Não deitar por pelo menos 2 a 3 horas após comer
  • Elevar a cabeceira da cama cerca de 15 cm
  • Perder peso se houver sobrepeso ou obesidade
  • Parar de fumar
  • Reduzir ou eliminar álcool, café, chocolate, gorduras e alimentos muito ácidos
  • Usar roupas largas — cinto apertado aumenta a pressão abdominal

Tratamento medicamentoso

Os inibidores de bomba de prótons (IBPs) são os medicamentos de escolha. Eles reduzem drasticamente a produção de ácido e promovem a cicatrização do esôfago. A duração do tratamento varia — alguns pacientes precisam de uso prolongado, o que deve ser feito com acompanhamento médico.

Os antiácidos aliviam os sintomas rapidamente, mas não tratam a causa — são um apoio, não um tratamento definitivo.

Cirurgia: quando é indicada?

A fundoplicatura laparoscópica é uma opção para pacientes com refluxo grave que não respondem bem aos medicamentos ou que não querem depender deles para sempre. Consiste em ‘reforçar’ a válvula entre esôfago e estômago. A indicação é feita após avaliação cuidadosa com manometria e pHmetria.

Quando marcar uma consulta com gastroenterologista?

Você deve buscar avaliação especializada se:

  • Os sintomas aparecem mais de duas vezes por semana
  • Os antiácidos não controlam o desconforto
  • Você sente dificuldade ou dor ao engolir
  • Está perdendo peso sem motivo aparente
  • Tem tosse ou rouquidão persistente sem outra explicação
  • Já fez tratamento antes e o refluxo voltou

O refluxo tem tratamento eficaz — você não precisa conviver com esse desconforto. Se os sintomas estão interferindo na sua qualidade de vida, agende uma consulta. Uma avaliação bem-feita pode mudar muito a sua rotina.

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